PRODUZINDO UM TRAP! Mãe Sepá Vou Pro Céu

Conheci o Kilombo numa visita que ele fez na “Casa Somos” quando morei lá em 2019. Localizada ao lado da estação Pça da Árvore – SP, uma casa de três andares com um estúdio no térreo. Enquanto estive lá a dinâmica era: recebíamos semanalmente artistas, projetos, gravações, audições e ensaios que eram administrados pelos próprios moradores. 

O ENCONTRO

Havia uma grande rotatividade de amigos e artistas que visitavam a casa, foi em um desses encontros aleatórios que conheci o Kilombo. Tinha umas sete pessoas em roda conversando, era fim de tarde e tava rolando um som de fundo, o Kilombo saiu improvisando algumas frases em cima da música, eu nem conhecia ele ainda, no término do som eu perguntei: porra, é de quem essa letra ? e ele disse: “é minha”!

Paredes do estúdio – Casa Somos

Kilombo morava em Sorocaba e tava ali em SP temporariamente pra poder finalizar um trabalho de vídeo com o Edgar, que era ex morador da casa. No meio daqueles improvisos eu via tudo que eu gostava, crítica com humor, improvisos em bases de trap, plug, grime, drill, tudo que veio, começamos a gravar no celular e alguma ideias entraram mais tarde no som.

As vezes os trabalhos mais importantes são os que você se envolve naturalmente. Projetos que muitas vezes estão para além do financeiro (pelo menos pra mim). O ponto é: quais ? decidi grava-lo, se eu queria ouvi-lo mas não tinha nada gravado… então, a história normalmente é essa, né ?

 

 

 

 

O BEAT

O Beat é do Nobru. Foi um dos fundadores e moradores da “Casa Somos” junto do Belizário. Tivemos uma ótima relação durante minha passagem por lá. Nobru é vocalista da Coligação Z.E.M e tem dois discos solos lançados,  gravou surdo, bumbo de corte, repinique e tamborin em sons do Choro, duo que divido com o Renan que também tocava comigo no Arara Saudita, banda que o Edgar também faz parte, enfim, tudo misturado. Foi durante diversas conversas com o Nobru que decidimos fazer  algum projeto juntos, essa era a premissa da casa, moradores interagindo com suas produções na medida do possível. Ao longo dos dias que se passaram depois da visita do Kilombo, eu e Nobru comentamos sobre as letras dele e cogitamos grava-lo no estúdio lá de casa, me lembro que o Nobru tava começando a desenvolver uns beats, veio com o Ipad me mostrar as bases que estava criando.

DESAFIO: EU NUNCA PRODUZI TRAP, BROW

Cada estilo ou gênero tem suas peculiaridades e as vezes a inexperiência de um produtor em determinado gênero pode ser ótimo ou não.  Eu nunca tinha gravado nada nesse gênero e realmente não pensava em gravar, mas independente do gênero, eu e Kilombo passamos a trocar  muita ideia e eu tava ali naquela casa disposto e atento a qualquer produção inesperada que fizesse sentido, então pensei: sinceramente, foda-se, ele topou, eu gravei e vamos ver o que dá.

AS IDÉIAS DA PRODUÇÃO: BEYONCÈ, BROW 

Além do beat produzido pelo Nobru, eu queria tentar trazer mais elementos sem tirar a essência da música. As vozes do início, por exemplo, gravei em casa mesmo agora em agosto de 2020, eu tinha acabado de ouvir o novo disco da Beyonce “Black is King” e me lembro que o Kilombo e o Gus (HeregEre) tinham simulado durante a pré produção  lá em 2019 uma voz: “A Terra quer, a Terra quer a revolução”,  queriam abrir a faixa cantando isso mas não rolou pensar em melodia e arranjo naquela hora, então juntei a ideia deles quase um ano depois e tentei harmonizar uns coros que vieram dessas ideias que “Black is King” trouxe. Se você acha Beyoncè pop demais pro seu hype, eu realmente sinto muito. Os dois últimos discos são ótimas aulas de produção e tudo que ela faz com a voz e coros. Assim como aprendo com Daminhão Experiença, aprende-se com tudo, conceito não é só Miles Davis e Dave Brubeck, Tim Maia e a bolha de Copacabana, o novo sempre vem, e que bom que venha, se  não viesse a música ainda estaria reservada aos salões imperiais ou exclusivas em Igrejas com o Cravo(instrumento) e as vozes femininas proibidas em apresentações. Que o mundo mude sempre, acompanha quem quiser.

Uma coisa que eu percebia nas produções de Trap, Plug – nacional ou internacional – eram sutis variações de voz e interpretação a cada verso, mesmo quando é quase sussurrado ou gritado, essas variações rítmicas auxiliam na fluidez do beat que nem sempre varia muito, então parte da produção foi encontrar essas variações no próprio Kilombo. Fizemos três dias de pré-produção.

 

O PROCESSO: MADRUGADÃO

Tivemos dois encontros na casa Somos e varias conversas por WhatsApp, revendo versos que faziam sentido na construção da narrativa que ele queria, falar das matas, da ciranda, das histórias do brasil, da consciência ancestral e o mundo moderno.

Aquela pré-produção foi importante, queríamos entender realmente a canção, o que poderia ser melhorado. Eu percebia no Kilombo uma destreza com as palavras e sentidos que ele queria dar, mas colocar a voz e a intenção certa no microfone é uma arte também. Por mais simples que pareça, muitos que gravam pelas primeiras vezes deixam a insegurança estampada no timbre da voz, as vezes tá afinada mas tá mecânica, sem vida, ou bonitinha demais só que sem aquele felling, tudo isso precisa de exercício, então parte do processo foi cantar, cantar de novo e de novo, exaustivamente durante esses três dias, até ir se soltando dos padrões que tava mecanicamente racionalizando e ir realmente cantando só na vibe, só curtindo e deixando fluir esses takes de adaptação, nesse processo eu deixo ele ouvir o som nas caixas com o retorno da voz no estúdio pra ele ouvir tudo “grande”, um ensaio mesmo, ver exatamente a pressão da música e da voz dele dentro da faixa, sentir a força que a música tem e o quanto ele precisa por de intenção ou não pra chegar “lá”, nessas tentativas e experimentações descompromissadas eu já vou gravando prévias, com tudo vazando mesmo(nem vaza tanto), e nessa descontração vamos definindo coisas que vão ficando interessantes nesse take a take, coisas originais que só essa experimentação mais a vontade vai trazendo, vou gravando e  mostrando pro artista os pontos legais de cada take até chegarmos numa versão satisfatória e bem resolvida de cada parte. Novo pra ele, novo pra mim, então grande parte do processo foi experimentar o lugar confortável pra ele cantar cada trecho, da intro ao último refrão.

CONTRA-TEMPOS: SEMPRE TEM

Durante o processo, já pra lançar a música, o Kilombo voltou pra Sorocaba e por quase 5 meses não lançamos o trabalho, ele passou a gravar com um pessoal e repensou no lançamento do  single e decidiu que viria com uma mixtape.  Já passei por diversas reprogramações de rotas na carreira, é natural, eu compreendia essas indecisões e mais do que isso, respeitava. Apoiei sua decisão, guardei nosso som, desejei boa sorte e deixei a porta sempre aberta na elevação máxima da tranquilidade.

 

RETOMADA: SALVE GÜELFI, VAMOS LANÇAR ?

Meses depois, quarentena rolando, ninguém podendo sair e realmente produzir quase nada, chega uma mensagem no Whatsapp, era o Kilombo perguntando o que eu achava de lançar o som. Veja: criar os beats é importante, produzir, mixar e masterizar é importante mas a parte das RELAÇÕES HUMANAS da produção musical é uma das maiores ferramentas da produção e nem sempre é comentada. Sem compreensão o trabalho não anda, ser realmente participativo se for do interesse do artista é fundamental pra formação do som no geral. Aquele áudio que o cara manda as 3hrs da manhã perguntando o que você acha, responde ele!(não as 3hrs da manhã, claro) mas ouve o som, e claro, confiar no artista que você ta produzindo senão a música nunca acaba e isso realmente acontece. No fim, eu só queria ver aquelas ideias  disponíveis pra galera também ouvir, sendo assim, topei lançarmos e comecei cuidar das partes burocráticas, registro das canções e pelo Whatsapp decidimos a capa, as fontes, transpondo a quarentena do jeito que foi possível. 

 

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MÃE SEPÁ VOU PRO CÉU

 

Disponível em todas as plataformas digitais. 97Kilombo, Mateus, 22 anos e muita história pra contar, obrigado.

*Auxiliar os mais próximos com real compromisso, crescendo juntos e profissionalmente nas relações reais da vida.

 

 

 

 

 

 

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